A grande confusão entre Enxaqueca e Nevralgia do Occipital
Nevralgia do occipital é uma doença rara que se manifesta com dor forte atrás da cabeça que dura poucos segundos a minutos, já começa no auge de intensidade, acompanhada de hipersensibilidade no couro cabeludo da área afetada, pode ser provocada por estímulos leves ou triviais (por exemplo o simples toque). É possível ter dezenas dessas crises num único dia, ou numa única hora.
Um ponto fundamental:
Nem toda dor atrás da cabeça é nevralgia do occipital.
Na prática clínica, a verdadeira nevralgia do occipital é muito mais rara que a maioria das pessoas imagina.
Ela é uma dor neural periférica, diferente de dores de cabeça de origem cervical comum ou de dores causadas por enxaqueca.
Em termos objetivos:
Nevralgia do occipital não é:
- Enxaqueca
- Dor muscular do pescoço
- Dor tensional
- “Dor na nuca” persistente”.
Nevralgia do occipital é:
- Dor neural periférica
- Em choque, fisgada ou pontada
- De início súbito, já em alta intensidade
- De curta duração
- Frequentemente desencadeada por toque leve.
Por que há tanta confusão com a nevralgia do occipital?
Recebo com frequência, no Instagram, perguntas sobre nevralgia do occipital. Acontece que nevralgia do occipital é ainda mais rara que nevralgia do trigêmeo. Portanto, a única conclusão razoável é que só pode estar ocorrendo uma grande confusão entre nevralgia do occipital e enxaqueca. Ou seja: A imensa maioria de quem ACHA que sofre de nevralgia do occipital, na verdade sofre de enxaqueca.
Vamos então explicar, de uma vez por todas, como é a nevralgia do occipital.
O que é Nevralgia do Occipital
Segundo a Classificação Internacional das Cefaleias, a nevralgia do occipital é descrita como uma dor paroxística, de curta duração, localizada no território dos nervos occipitais, podendo ser desencadeada por estímulos mínimos e, em alguns casos, aliviada por bloqueio anestésico local.
Nevralgia do Occipital: Causas
A nevralgia do occipital é causada por um pinçamento de nervo occipital, ou lesão por trauma, cirurgia ou infecção (ex: herpes zoster na região do nervo).
Existem 3 nervos occipitais de cada lado da cabeça. O pinçamento pode vir, por exemplo, de uma artrite em certas regiões por onde o nervo passa. Ou sequela de uma cirurgia. Ou até certas contraturas musculares atrás da cabeça (Sim! Má postura, stress crônico e posições ruins da cabeça por tempo prolongado também podem causar esse pinçamento), e assim por diante).
Diferente da enxaqueca, que envolve mecanismos centrais de modulação da dor, e não lesões ou pinçamentos de nervos periféricos.
Nada impede alguém de ter enxaqueca e também uma lesão ou pinçamento de nervo, no caso o occipital.
Nevralgia do occipital é doença rara
Nevralgia do occipital é considerada ainda mais rara que a nevralgia do trigêmeo, para a qual se estima uma incidência em torno de 5 a 6 pessoas a cada 100.000 pessoas, por ano. Isso significa que a verdadeira nevralgia do occipital é uma condição excepcional, frequentemente superdiagnosticada quando qualquer dor na nuca recebe esse rótulo.
Dor localizada atrás da cabeça é muito comum. Porém a localização, sozinha, não dá o diagnóstico. É preciso preencher outros critérios, como veremos daqui a pouco.
Idade de início muito diferente da enxaqueca
A faixa etária em que se encontra a maioria dos sofredores de enxaqueca é entre 15 e 50 anos.
Já a faixa etária em que se encontra a imensa maioria dos sofredores de nevralgia do occipital é acima dos 50 anos. Quanto mais avançada a idade, maior o número de pessoas acometidas.
É possível que uma pessoa de 10, 20, 30 anos, sofra de nevralgia do occipital? Sim, porém é muito improvável.
O que esses dados epidemiológicos nos dizem?
Esses dados reforçam que a maioria das dores atrás da cabeça não corresponde a nevralgia do occipital, especialmente em pessoas jovens.
Sintomas da Nevralgia do Occipital
Para que se considere o diagnóstico de nevralgia do occipital, é esperado que estejam presentes a maioria dos sintomas abaixo, em conjunto:
- Dor lancinante, aguda, súbita (em facada, tiro ou choque elétrico) de poucos segundos a minutos de duração, atrás da cabeça;
- Quase sempre começa de um dos lados, podendo em seguida se localizar nos dois lados;
- É possível ter desde uma única até dezenas dessas dores em sequência, ao longo do dia;
- Pode ser desencadeada pelo simples toque ou ato de pentear o cabelo, tomar banho etc;
- Entre esses ataques de dor muito forte, pode existir dor contínua, em peso/pressão, atrás da cabeça, que pode se irradiar para a frente;
- A pressão em certos pontos atrás da cabeça e/ou nuca pode causar ou aumentar a dor descrita no item anterior, na frente da cabeça;
- Sensações esquisitas, como formigamento, comichão, ardor, atrás da cabeça.
Não basta ter só hipersensibilidade do couro cabeludo atrás da cabeça. Ou só ter a dor na frente da cabeça desencadeada ao apertar um ponto atrás. Ou só formigamentos e outras sensações esquisitas atrás da cabeça. Esses sintomas sozinhos não fazem o diagnóstico de nevralgia do occipital.
O diagnóstico costuma exigir a presença da maioria desses sintomas, especialmente as ‘mini-crises’ de curta duração.
Como é feito o diagnóstico?
O médico, ao fazer o diagnóstico, leva em conta um conjunto de fatores, como a idade do paciente (quanto menor a idade, maior a busca para a possibilidade de outros diagnósticos como enxaqueca), histórico da doença e resultado de exames como ressonância magnética e/ou tomografia, para visualizar qualquer anormalidade que possa estar causando um pinçamento de nervo, por exemplo.
Infiltração / Bloqueio anestésico como ferramenta diagnóstica
Já que a causa é uma irritação num dos nervos occipitais (existem 3 de cada lado), o médico pode fazer um simples bloqueio anestésico nos nervos occipitais, embaixo da pele. Se o problema está em algum desses nervos, os sintomas enumerados acima tendem a passar durante o tempo de duração do anestésico, e isso vai dar a certeza para o médico de que a dor se origina no nervo occipital, ajudando a fechar o diagnóstico de nevralgia do occipital.
Uma vez confirmado o diagnóstico, o próximo passo é definir a melhor abordagem terapêutica.
Tratamento da Nevralgia do Occipital
O tratamento envolve tentar descobrir o motivo do pinçamento, trauma, inflamação ou o que possa estar causando o problema no nervo occipital.
O tratamento depende da causa identificada e pode seguir caminhos diferentes.
Se, por exemplo, os exames apontarem que a causa do pinçamento é corrigível por cirurgia, pode fazer sentido fazer essa correção, com possibilidade de resolver o problema.
Em casos em que a cirurgia não está indicada, podem ser considerados tratamentos não cirúrgicos, como:
- Medicamentos via oral (ex: certos anticonvulsivos)
- Técnicas de relaxamento
- Massagem
- Injeções de toxina botulínica
- Bloqueios de nervo occipital com corticoides (efeito antiinflamatório), e até mesmo
- Abordagens mais complexas como neuromodulação
- Tudo isso no intuito de dificultar ou impedir que estimulos alcancem as áreas do cérebro responsáveis pela percepção da dor.
Pessoalmente, não trato nevralgia do occipital. É um problema tão raro que, até hoje, não acompanhei nenhum caso típico. Ainda assim, sei reconhecer e diagnosticar a condição, e por isso já ajudei muitos pacientes que pensavam ter nevralgia do occipital a descobrir que o diagnóstico deles, na verdade, era enxaqueca – e ai sim, tratei.
Conclusão
A nevralgia do occipital é uma condição real, porém rara.
Na prática clínica, a maior parte das dores atrás da cabeça não corresponde a esse diagnóstico, mas a outras causas muito mais frequentes.
O principal desafio não está em tratar a nevralgia do occipital, e sim em reconhecer quando ela realmente está presente. E quando não está.
Um diagnóstico correto evita rótulos equivocados, tratamentos desnecessários e expectativas irreais.
Referências:
- International Classification of Headache Disorders (ICHD-3), 13.4 “Occipital neuralgia” — International Headache Society. https://ichd-3.org/13-painful-cranial-neuropathies-and-other-facial-pains/13-4-occipital-neuralgia/
- Occipital Neuralgia – StatPearls / NIH (2023). https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538281/




