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O uso frequente de analgésicos comuns pelos portadores de enxaqueca pode acarretar em dependência.

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Estimulação Magnética Transcraniana

Tratamento Experimental Para Enxaqueca

Eficácia e Riscos Ainda Estão Sendo Determinados

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estimulação magnética transcranianaEstimulação Magnética Transcraniana é um procedimento que consiste na passagem de uma corrente elétrica através de uma bobina de fios elétricos colocados bem próximos à cabeça, mas sem que os fios elétricos encostem na cabeça, para que não ocorra um choque elétrico. Como sabemos da física, a passagem dessa corrente elétrica gera um campo magnético (no caso da Estimulação Magnética Transcraniana, um forte campo magnético) que corre perpendicular ao eixo da bobina.

O campo magnético assim gerado atravessa a pele, tecido muscular, crânio (osso) e se alastra no cérebro. Embora forte, esse campo magnético é emitido pelo aparelho de Estimulação Magnética Transcraniana em um pulso de oscilação, como uma "onda" magnética, de duração extremamente breve. Ou seja, a descarga elétrica que passa pela bobina é forte porém breve, e o campo magnético gerado pela descarga elétrica também é ao mesmo tempo forte e breve. Todo esse processo é basicamente indolor.

Além de forte e breve, o campo magnético gerado pela Estimulação Magnética Transcraniana é localizado, ou seja, é possível através de toda uma ciência envolvida na Estimulação Magnética Transcraniana, estimular apenas áreas específicas do cérebro, e não o cérebro inteiro.

No cérebro, essa rápida oscilação de campo magnético penetra nas membranas dos neurônios (células cerebrais), resultando num potencial de ação (ascenção e declínio súbitos da "eletricidade", ou potencial elétrico da membrana dos neurônios). Em outras palavras, a Estimulação Magnética Transcraniana resulta num "disparo" dos neurônios afetados. Esse disparo, por sua vez, é transmitido por estes neurônios para outros neurônios. Dependendo de quais neurônios foram afetados pela Estimulação Magnética Transcraniana, esse processo pode resultar num efeito desejável, como a inibição das vias neuronais responsáveis pela percepção da dor de cabeça de uma crise de enxaqueca.

Existem três tipos básicos de Estimulação Magnética Transcraniana: a de pulso único, a de pulso pareado e a repetitiva, que por sua vez se subdivide em monofásica ou bifásica. Cada tipo tem suas indicações clínicas.

A Estimulação Magnética Transcraniana tem sido utilizada há décadas na tentativa de tratar certas doenças que acometem o cérebro. No tratamento da enxaqueca, a Estimulação Magnética Transcraniana ainda se encontra em fase experimental, portanto a real utilidade da Estimulação Magnética Transcraniana para o tratamento de todos os casos de enxaqueca ainda requer comprovação definitiva. Estudos e pesquisas vêm sendo publicados, na tentativa de verificar a eficácia de vários tipos de Estimulação Magnética Transcraniana na enxaqueca.

Os resultados dessas pesquisas preliminares, na minha opinião, não têm sido muito animadores. Um estudo no qual 82 pacientes em crise de enxaqueca receberam Estimulação Magnética Transcraniana de pulso único revelou melhora em apenas 39% dos casos. Outros 82 pacientes que tiveram o aparelho de Estimulação Magnética Transcraniana "montado" na cabeça, mas que não foi acionado (no intuito de fazer este grupo "pensar" que foi tratado e comparar a melhora deste grupo em relação ao grupo que de fato recebeu a estimulação magnética transcraniana) apresentaram melhora da crise de enxaqueca em 22% dos casos! O estudo foi patrocinado pelo fabricante do aparelho (www.eneura.com/) e publicado em abril de 2010 no prestigioso The Lancet Neurology, volume 9, número 4, páginas 373-380.

Em outras palavras, 22% de quem não fez nada melhoraram, comparado a 39% de quem se submeteu à Estimulação Magnética Transcraniana.

Na minha opinião, 39% de melhora não é um número nada impressionante, visto que o efeito placebo (porcentagem de indivíduos que melhoram com "remédio de mentirinha") comprovado para administração de analgésicos em enxaqueca (e publicado em Cephalalgia 2003 23(7):487-90) é de, em média, 30%. Em outras palavras, 39% não me parece ser grande vantagem.

Especialmente considerando o custo que deverá ter cada sessão de Estimulação Magnética Transcraniana (minha previsão é de não menos de R$ 400,00, se algum dia o tratamento for aprovado), ou quem sabe um aparelho portátil de Estimulação Magnética Transcraniana para uso pessoal, se/quando for lançado (valor estimado pela agência de notícias ABC News em 2.000 dólares, para o aparelho nos Estados Unidos. No Brasil, equipamentos eletrônicos costumam custar cerca de 3 vezes mais).

Aparentemente, todo mundo lucra com a Estimulação magnética transcraniana. Mas será que você lucra com ela?

Riscos e Efeitos Colaterais da Estimiulação Magnética Transcraniana

É muito importante compreendermos os possíveis riscos e efeitos colaterais da Estimulação Magnética Transcraniana.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que existem riscos conhecidos e riscos ainda desconhecidos e que provavelmente só virão a se tornar conhecidos se/quando a Estimulação Magnética Transcraniana deixar de ter caráter experimental e passar a ser disponibilizada ao mercado consumidor (portadores de enxaqueca em geral).

Convulsões

O principal e maior risco da Estimulação Magnética Transcraniana conhecido até aqui é a indução de convulsões. Em outras palavras, a Estimulação Magnética Transcraniana pode provocar crises epiléticas. Isso se deve à indução de uma hiperexcitabilidade neurfisiológica que pode ser induzida tanto pela Estimulação Magnética Transcraniana de pulso único quanto pela repetitiva. Essas crises convulsivas podem ser localizadas (restritas a uma parte do corpo como braço, mão etc) ou generalizadas (convulsão do corpo inteiro com perda de consciência).

Se um determinado indivíduo vai ou não ter convulsão, e/ou o valor da porcentagem de risco para apresentar convulsão, é algo que varia de acordo com o estado em que se encontra o cérebro daquele indivíduo no momento da aplicação da Estimulação Magnética Transcraniana. Obviamente, indivíduos que já tiveram AVC (Acidente Vascular Cerebral, popularmente conhecido como "derrame cerebral"), esclerose múltipla, tumor cerebral e outros distúrbios do cérebro que, por si, predispõem a convulsões, não deveriam se expor à Estimulação Magnética Transcraniana. O uso de antidepressivos (inclusive a bupropiona e a venlafaxina, e especialmente os antidepressivos tricíclicos), tão comum em quem sofre de enxaqueca, também vem com risco aumentado de convulsões. Drogas como o tramadol (bastante utilizado em serviços de pronto atendimento para crises de enxaqueca), aminofilina e teofilina (utilizados por quem sofre de asma e outros problemas respiratórios), alguns antihistamínicos (utilizados por quem tem alergias), corticóides via oral ou injetável (usados frequentemente em serviços de pronto atendimento para o tratamento de crises de enxaqueca e que, dependendo, podem continuar atuando no organismo por semanas após a aplicação), buspirona (um ansiolítico), drogas estimulantes do Sistema Nervoso Central (ex: anfetaminas e alguns outros "aceleradores do metabolismo").

Menos óbvio, porém não menos real, é o fato de que a cafeína, contida nos refrigerantes, energéticos, remédios para enxaqueca, e no café, pode diminuir o limiar para convulsões dependendo da dose e fatores individuais predisponentes. Pelo menos é o que constatou o Dr. Kenneth Kaufmann, do Departamento de Neurologia e Psiquiatria do UMDNJ - Robert Wood-Johnson Medical School nos Estados Unidos, em trabalho apresentado no 55° Encontro Anual da American Epilepsy Society (30/11 a 05/12 de 2001) e publicado em outubro de 2003 na Seizure - European Journal of Epilepsy, Volume 12, n° 7, pags. 519-521 (PII: S1059-1311(03)00048-7 doi:10.1016/S1059-1311(03)00048-7). Vários outros estudos existem mostrando que a cafeína pode não apenas predispor, mas induzir convulsões [Epilepsia 22(1):85-94, Eur J Pharm 144(3):309-315, Epilepsia 41(12):1534-1539].

Outros fatores associados ao estilo de vida, como sono insuficiente, hipoglicemia (que ocorre quando se atrasa ou perde uma refeição), período menstrual, stress intenso, também diminuem o limiar para convulsão.

Ou seja, alguém que esteja passando por uma fase de muito stress, que além disso bebe muito café, perdeu uma refeição, faz uso de algum dos antidepressivos ou outros medicamentos acima e ainda por cima se submete a uma Estimulação Magnética Transcraniana... – Pergunto: essa pessoa não estaria com uma probabilidade ainda maior de apresentar uma convulsão em resposta a esse procedimento? Será possível controlar tantas variáveis?

Como se não bastasse, a frequência, intensidade e duração das sessões de Estimulação Magnética Transcraniana também influenciam o risco de convulsões. Para tornar tudo ainda mais complicado e paradoxal, foi descoberto que numa faixa de frequência baixa, a Estimulação Magnética Transcraniana pode ajudar a prevenir convulsões [Seizure 14(6):387-392].

Efeitos no Humor

Existe um estudo mostrando que a Estimulação Magnética Transcraniana induziu hipomania de caráter transitório (comportamento provocado por hiperestimulação do humor, podendo ser caracterizado por agitação psicomotora, diminuição da atenção, sensação anormal de grandiosidade e hipersexualidade) [Journal of ECT 15:166-168], e disartria transitória (distúrbio na articulação das palavras) – mas também pode elevar o humor, tendo sido até aprovado nos Estados Unidos para o tratamento da depressão.

Diminuição da Audição, Zumbido no ouvido (Tinnitus)

Dependendo como é aplicada, a Estimulação Magnética Transcraniana tem o potencial de provocar aumento transitório no limiar auditivo (ou seja, diminuição transitória da audição) [Neurology 42: 647 – 651]. O uso de proteção auricular durante o procedimento evita que isso ocorra. Já em animais de laboratório, o dano auditivo foi permanente [Neurology 40(8):1159-62].

Embora não esteja descartada a possibilidade da Estimulação Magnética Transcraniana provocar tinnitus (zunido/bumbido/barulho no ouvido), há estudos sugerindo que ela pode tratar do tinnitus.

Dor no local da aplicação

Dependendo da frequência e intensidade da estimulação magnética transcraniana, assim como da presença ou ausência de um sensor de temperatura no aparelho capaz de interromper seu funcionamento em caso de hiperaquecimento da bobina, pode ocorrer queimadura da área de contato da bobina com a pele.

Além disso, o estímulo dos músculos e nervos próximos à bobina pode resultar em dor - inclusive dor de cabeça!

Efeitos Desconhecidos

Não se sabe, a essa altura, os efeitos que a Eletroestimulação Magnética Transcraniana poderia provocar a longo prazo sobre a cognição (memória, processos mentais de aquisição de conhecimento), o sistema endócrino (glândulas localizadas no cérebro como a hipófise e a pineal) e a existência ou não de outros possíveis prejuízos à saúde.

A Estimulação Magnética Transcraniana Está em Fase de Estudos

A Estimulação Magnética Transcraniana ainda não é um tratamento aprovado para enxaqueca. Encontra-se em fase de estudos experimentais. Alguns grandes centros no Brasil estão participando desses estudos (muito provavelmente patrocinados pelo fabricante do aparelho) e recrutando voluntários. A contar pelo desespero e desinformação da quase totalidade dos portadores de enxaqueca (aliás, para se livrar da desinformação - e por que não dizer, do desespero! - você realmente deveria ler meu livro. Clique aqui para saber mais a respeito), o alistamento de voluntários, infelizmente, deverá ser grande.

Na minha opinião, não deveriam participar de estudos envolvendo a Estimulação Magnética Transcraniana pessoas portadoras de epilepsia ou com familiares próximos que sofram de epilepsia, usuários de remédios capazes de diminuir o limiar para convulsões (algumas delas enumeradas acima), portadores de qualquer tipo de doença cerebral (além, é claro, da enxaqueca), portadores de tinnitus (barulho/tinido/zunido/zumbido em um ou ambos os ouvidos), portadores de marcapasso ou qualquer dispositivo que tenha o potencial de sofrer interferência causada pela frequência eletromagnética, mulheres grávidas. Será mais seguro para o paciente caso o centro que está realizando o estudo monitore cada paciente cuidadosamente durante a administração da Estimulação Magnética Transcraniana, por exemplo, através de eletroencefalograma durante a estimulação, exame clínico para detectar indícios precoces de convulsão, e presença de um médico com experiência no tratamento de convulsões durante o procedimento.

Dr. Alexandre Feldman
15/02/2012

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